Quando um filho perde o pai


Como toda verdade repetida incontáveis vezes, esta frase se tornou um clichê: nossa única certeza é a morte. Com a morte, vem a difícil fase do luto, nossa resposta natural à quebra de uma ligação afetiva, momento-chave no qual que iremos nos confrontar com a nossa própria mortalidade ao passo que lidamos com a dor da perda. O assunto é delicado, mas de suma importância para os que passaram por tal situação: o que fazer quando o filho perde o pai?

Não é possível apontar com precisão o que será da pessoa que perdeu um ente tão fundamental quanto o pai, figura que representa um vínculo de sobrevivência. As reações variam de acordo com diversos fatores, sendo a idade um agravante devido às diferentes condições emocionais de cada fase da vida. A perda precoce, se não superada, pode gerar distúrbios a longo prazo, ocasionando disfunções emocionais graves.

Quando um filho perde o pai

Para o psicólogo, psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby, notório por seus estudos sobre a Teoria do Apego, o luto pode ser metaforicamente relacionado a uma inflamação, que é a reação de um organismo a uma lesão. O enlutado, assim, na condição de um sujeito lesionado, precisará passar por certos ajustes sociais para conseguir superar essa fase, na qual sentimentos como a raiva, o medo e a culpa podem surgir desenfreados.

Importância do apoio

O mais importante a se fazer, na fase do luto, é não reprimir os sentimentos. A negação da perda pode gerar problemas emocionais graves a longo prazo, como a incapacidade de estabelecer vínculos. Esse mecanismo de defesa, a negação, é considerada uma das fases da perda, mas não pode ser alimentada para sempre. É preciso externar a dor e trabalhar os aspectos psicológicos. O objetivo final é que as lembranças remanescentes sejam vistas com bons olhos, não mais pelo viés da dor.

quando um filho perde o pai

O apoio ao enlutado é fundamental – seja familiar, de amigos ou de psicólogos. O apoio familiar é essencial para que o alicerce psicológico do filho não vá de vez por água abaixo; é preciso mostrar a ele que, apesar da perda, ainda há pessoas que estão ali e irão ajudá-lo a superar a dor. O mesmo vale para os amigos. É preciso provar que ainda existem vínculos, que é possível seguir em frente. Já o apoio profissional pode se mostrar imprescindível em casos mais graves, e é o que ajudará o enlutado a expor e compreender seus próprios sentimentos. Dentro dessas possibilidades de apoio, também vale citar a Associação Brasileira de Apoio ao Luto, a Casulo, uma organização sem fins lucrativos que trabalha com o enlutado em 12 encontros de temas variados.

Possibilidades construtivas

Confrontar a morte não é fácil. Ainda mais a do pai. Mas existem várias formas de externar essa perda: como as artes, por exemplo. Exercícios de escrita podem fazer com que o enlutado entre em contato com as próprias angústias, tendo a oportunidade de melhor compreendê-las. O importante é não deixar nada guardado: chore, desabafe. Escreva sobre. É normal sentir a dor da perda, mas não é possível carregá-la para sempre.

É um momento delicado, que pede muita calma e atenção. Dentre muitas variáveis, o enlutado pode apresentar comportamento autodestrutivo, ter crises de choro, sentir-se desamparado, etc. Mas é, também, um momento de superação próprio, que pode abrir espaço para reflexões que mudarão para sempre a forma de enxergar a vida. Mesmo que o pai tenha partido e, com ele, grande parte do que sustentava a saúde emocional do filho, a vida pode continuar. Recebendo o apoio necessário e trabalhando os próprios sentimentos, é possível superar essa perda e seguir em frente ainda mais forte.


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